Ao atualizar experiências passadas, buscando os acontecimentos, deparamo-nos com uma camada mais profunda da memória — uma camada que escapa ao domínio do factual.

Essa memória, que não se ancora em eventos objetivos, é composta por aquilo que Suely Rolnik nomeia como marcas: vestígios sensíveis de encontros que nos atravessaram e nos des-organizaram, desfigurando a forma que havíamos até então encarnado (ROLNIK, 2018).

Ao longo da vida, em todos os territórios que habitamos, não estamos apenas imersos em relações sociais visíveis, mas também em campos afetivos e existenciais de natureza menos manifesta. Convite a um deslocamento de olhar: que possamos escutar não apenas o que se mostra, mas aquilo que vibra no plano do imperceptível — zonas de silêncio, intensidades, pulsações sutis (ROLNIK, 2018).

No plano do visível, nos relacionamos com o outro (humano ou não), numa lógica de alteridades bem delineadas. Mas, no plano do invisível, há uma tessitura mais profunda, uma rede de forças e correntes que nos atravessa e compõe, conectando-nos a outras vidas, a outros tempos, a outras potências. Quando essas correntes transbordam um certo limiar, somos tomados por estados inéditos — modos de sentir, pensar e existir que não pertencem ao repertório da subjetividade que até então nos sustentava (ROLNIK, 2018). Nesses momentos, nossa forma se rompe. O contorno identitário vacila. O corpo, desestabilizado, exige um novo arranjo — um novo modo de existir capaz de acolher e fazer viver esse estado emergente. Cada vez que respondemos a esse estado, tornamo-nos outros. A marca, então, é essa diferença encarnada, esse ponto de inflexão que nos convoca à criação de um novo corpo (ROLNIK, 2018).

Contudo, o processo não se esgota com o acontecimento. Por um lado, porque enquanto houver vida, haverá marcas; por outro, porque uma vez inscrita em nosso campo de existência, a marca continua ativa. Ela vibra como um campo latente, esperando por um novo encontro que a reatualize. Em outras palavras: ela permanece como demanda de criação (ROLNIK, 2018).

“Um corpo que escreve e é escrito, que se redesenha na tentativa de existir de forma não domesticada. Um corpo que falha, que rabisca, que transborda, que não se fixa — que não quer ser forma acabada”.
César Velho de Freitas